O terceiro episódio da sétima temporada de Black Mirror, Hotel Reverie, nos traz um romance sáfico estrelado por Emma Corrin e Issa Rae. Em entrevista ao site da Netflix, Corrin e o criador Charlie Brooker falam sobre o final agridoce dado à história. Confira:
Será que Hotel Reverie, episódio de Black Mirror, entrega realmente um final feliz? Isso ainda está em aberto para debate.
Neste conto sáfico, a atriz de primeira linha Brandy Friday (Issa Rae) está frustrada por estar sempre sendo escalada nos mesmos tipos de papéis e sonha com algo atemporal e romântico — como o clássico de Hollywood Casablanca.
Por sorte, para ela, a executiva de estúdio Judith Keyworth (Harriet Walter), que está enfrentando dificuldades financeiras, concorda em usar o software Redream — uma tecnologia que insere estrelas do presente em filmes do passado para criar remakes interativos — numa tentativa de revitalizar sua decadente produtora, a Keyworth Pictures.
Brandy agarra a oportunidade de protagonizar uma nova versão de seu filme favorito, Hotel Reverie, no qual ela interpreta Alex Palmer, uma versão com troca de gênero do herói original. O longa também conta com sua atriz favorita, Dorothy Chambers (Emma Corrin), no papel de Clara, seu par romântico.
Mas, depois de entrar em uma versão imersiva e gerada por inteligência artificial do filme de 1949, Brandy descobre que seguir fielmente a história original é muito mais difícil do que parece.
O projeto sai totalmente dos trilhos quando Brandy perde um sinal importante, criando um grande buraco na trama que ela precisa consertar para acionar os créditos finais — ou corre o risco de ficar presa naquela realidade alternativa para sempre.
E, justamente quando as coisas começavam a voltar ao normal, um dos engenheiros derruba café em um dos servidores, tirando o Redream do ar enquanto Brandy ainda está presa dentro do sistema. Embora o programa volte a funcionar em poucos minutos no mundo real, dentro de Hotel Reverie se passaram meses — tempo suficiente para Brandy e Dorothy se apaixonarem.
Como Hotel Reverie termina?
Na cena climática do filme, Clara atira e mata o próprio marido — uma mudança drástica em relação à história original — e acaba fatalmente ferida depois de abrir fogo contra um detetive. Enquanto Clara morre nos braços de Brandy, Brandy, relutante em deixar Dorothy para trás quando o filme chegar ao fim, luta para dizer sua última fala. Mas, eventualmente, ela pronuncia as palavras que a libertam da simulação, e acorda no mundo real ainda abalada com tudo o que acabou de acontecer.
Apesar das mudanças não planejadas no enredo, a nova versão de Hotel Reverie se torna um sucesso absoluto nas plataformas de streaming. E, em um gesto emocionante, Kimmy (Awkwafina), a representante da Redream que vinha orientando Brandy durante as filmagens, envia para ela um pacote especial: um telefone antigo que permite a Brandy conversar com Dorothy, a atriz que interpretou Clara, sempre que quiser.
O criador e showrunner de Black Mirror, Charlie Brooker, contou que já sabia desde o início qual seria o desfecho do episódio. “Eu sabia exatamente qual deveria ser o final”, disse ele ao Tudum. “Que [Dorothy e Brandy] teriam esse tipo de romance à distância… parecia agridoce.”
Corrin, que interpreta Dorothy, afirma que o final destaca “a beleza de duas pessoas que se encontraram em uma circunstância extraordinária”. Mas também existe um lado triste, porque “a versão de Dorothy com quem Brandy está conversando continua existindo dentro daquela bolha.”
Com as duas se reconectando por telefone, será que isso marca o começo de um novo romance? “Brandy quase quis ficar naquele mundo”, observa Brooker. “É uma questão em aberto o que vai acontecer a seguir, porque já mostramos que existe a possibilidade de entrar ali… e quem disse que elas estão limitadas a isso?”
Hotel Reverie sempre foi pensado como uma história de amor?
Não exatamente. O episódio nasceu de várias ideias que estavam flutuando na cabeça de Charlie Brooker, incluindo um conceito de terror sobre alguém restaurando cenas antigas de um filme mudo de vampiro dos anos 1930.
“Eu tive essa ideia de alguém restaurando um filme antigo de terror e, de repente, perceber que pode conversar com alguém dentro do filme”, explica Brooker. Outra ideia envolvia colocar um novo ator dentro de um filme antigo de James Bond.
“Eu estava discutindo muito isso com a [co-roteirista] Bisha K. Ali. A gente assistiu a alguns filmes do Bond que eu não via fazia tempo”, conta o produtor executivo. “A ideia engraçada seria: ‘Ah, tem uma pessoa meio desajeitada que acaba entrando acidentalmente no [filme]’. Seria tipo a pessoa errada jogada no papel de James Bond.”
Mas, entre as semelhanças com a trilogia Austin Powers, de Mike Myers, e o orçamento gigante que uma paródia de Bond exigiria, essa ideia acabou não indo pra frente. Foi então que Brooker assistiu ao drama romântico britânico dos anos 1940 Brief Encounter, e a história de Hotel Reverie finalmente começou a tomar forma.
“Eu pensei: ‘Ah, romance clássico. E se fosse um romance vintage? É isso que temos que fazer'”, relembra ele. “Um filme de romance antigo tem uma história mais simples. E tem algo meio De Volta para o Futuro nisso — tipo, você bagunça a história e depois precisa colocar tudo de volta nos trilhos.”
A Netflix anunciou uma nova minissérie de 6 episódios baseada no clássico romance Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, com Emma Corrin, Jack Lowden e Olivia Colman nos papéis dos icônicos personagens Elizabeth Bennet, Sr. Darcy e Sra. Bennet, respectivamente. As gravações acontecerão no Reino Unido ainda este ano.
A versão de Orgulho e Preconceito da plataforma de streaming tem roteiro assinado por Dolly Alderton (Tudo o Que Sei Sobre o Amor) e direção de Euros Lyn (Heartstopper), que também atua como produtor executivo ao lado de Corrin — marcando sua estreia como EP —, além de Laura Lankester, Will Johnston e Louise Mutter pela produtora Lookout Point. Lisa Osborne assina a produção.
Fontes próximas à produção revelaram que está em andamento a busca pelo figurino perfeito: uma camisa branca fluida, de botões, que fique incrível tanto molhada quanto seca.
O segundo romance de Jane Austen acompanha Elizabeth Bennet, uma jovem solteira, segunda entre cinco filhas de Sr. e Sra. Bennet, moradores de Hertfordshire, nos arredores de Londres. Como a casa da família só pode ser herdada por homens, recai sobre as filhas a pressão de casar bem — ou correr o risco de perder tudo. Em meio à vida social da época, Elizabeth conhece homens solteiros como o Sr. Darcy, um sujeito aparentemente rabugento, mas frequentemente incompreendido. O livro aborda questões como etiqueta, criação, moralidade, educação e casamento na sociedade da aristocracia rural durante o período da Regência Britânica.
A Netflix promete que esta minissérie será “uma adaptação clássica e fiel ao romance”, com roteiro de Dolly Alderton, que espera que o público se encante com a obra “ao mesmo tempo em que inspira uma nova geração a se apaixonar por Austen pela primeira vez”.
“Uma vez a cada geração, um grupo de pessoas tem a chance de recontar essa história maravilhosa, e me sinto muito sortuda de fazer parte disso”, declarou Alderton em comunicado. “Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, é a estrutura original da comédia romântica — foi uma alegria voltar às suas páginas para encontrar formas, tanto familiares quanto novas, de dar vida a esse livro tão amado. Com Euros Lyn dirigindo esse elenco estelar, estou muito empolgada para reapresentar esses personagens hilários e complexos, tanto para quem já considera Orgulho e Preconceito seu livro favorito quanto para quem ainda está prestes a conhecer sua Lizzie e seu Sr. Darcy”, completou.
Corrin também celebrou: “Interpretar Elizabeth Bennet é uma oportunidade única na vida. Poder dar vida a essa personagem icônica, ao lado de Olivia e Jack, com os roteiros fenomenais da Dolly, é, de verdade, a maior honra. Mal posso esperar para que uma nova geração se apaixone por essa história mais uma vez.”
“Estamos muito felizes em compartilhar este clássico britânico tão querido com nosso público global. Orgulho e Preconceito é a comédia romântica definitiva. A inteligência afiada e o enorme coração de Dolly, combinados com seu amor genuíno pelo romance de Austen, fazem com que ela consiga trazer novos olhares, ao mesmo tempo em que celebra tudo aquilo que gerações de fãs amam profundamente. A qualidade de um elenco liderado por Emma, Jack e Olivia é uma prova de que esta história preciosa está nas melhores mãos possíveis, com Euros Lyn e a equipe da Lookout Point comandando o projeto”, declarou Mona Qureshi, executiva da Netflix.
Após estrelar a peça THE SEAGULL e protagonizar um dos episódios da nova temporada de Black Mirror, Emma Corrin estampa a capa da edição de maio da ELLE UK e fala sobre sua relação complicada com a fama e sobre onde encontra esperança nos dias de hoje. Confira abaixo a entrevista traduzida e as fotos do ensaio fotográfico para a revista:
Emma Corrin está frequentemente em um estado de questionamento, seja em conversas sobre uísques às duas da manhã ou enfrentando questões muito mais intensas e pessoais (“O que é que eu tô fazendo? Quero largar tudo e fazer outra coisa? O que isso significa? Quem sou eu?”). A artista de 29 anos é reflexiva e introspectiva, e seu olhar penetrante muitas vezes parece estar lendo meu rosto em busca de uma reação, enquanto responde às minhas perguntas com ainda mais perguntas.
Corrin está falando comigo de seu hotel em Paris, após um merecido sono de 11 horas e um raro dia de folga da rotina intensa nos palcos com THE SEAGULL, a clássica peça de Tchekhov na qual atua. A adaptação moderna dirigida por Thomas Ostermeier no Barbican conta com um elenco estrelado (Cate Blanchett vive Arkadina, a atriz em decadência), enquanto Corrin interpreta Nina, a jovem aspirante a artista que sonha com a fama.
Embora um dos papéis sobre os quais estamos aqui para falar se passe em uma peça de 1895, o outro está ambientado em um futuro distópico. Na nova temporada de Black Mirror, a sátira de ficção científica criada por Charlie Brooker, Corrin e Issa Rae vivem amantes em Hotel Reverie, um episódio que explora um avanço tecnológico tão absurdo quanto assustadoramente plausível: o uso de IA para refazer filmes clássicos inserindo atores do presente nos mundos originais dessas obras. “Entrar no set pela primeira vez, com aqueles cenários em preto e branco pintados à mão de forma incrível, foi muito especial”, conta Corrin.
As cenas entre elu e Rae são absolutamente hipnotizantes; a química entre es dois é tão delicada que suaviza o sentimento de angústia que normalmente acompanha um episódio de Black Mirror. “Ela é brilhante”, diz Corrin sobre sua colega de elenco. “O timing cômico dela é inacreditável. No fundo, é uma história de amor, e acho que isso vai surpreender as pessoas. Não é aquele grande alerta de terror.”
Ainda assim, quando a conversa inevitavelmente se volta para o uso de IA no cinema — um dos principais motivos da greve do sindicato SAG-AFTRA em 2023 —, Corrin fica em silêncio por um momento. “Eu não sou fã.” Elu faz uma pausa. “Na verdade, acho horrível. Isso me apavora. A perda da criatividade original, orgânica, e o fato de não precisar mais estar numa sala com um grupo de pessoas para criar algo… isso me assusta muito. Meu Deus, depois de tudo que está acontecendo no mundo, com certeza a única coisa da qual a gente deveria se agarrar é justamente estar numa sala com outras pessoas criando algo do zero. Esse é o ponto de partida de tudo, não é? A origem da esperança.”
O teatro — esse espaço onde pessoas criam algo do zero — é o primeiro amor de Corrin, embora aceitar seu papel atual tenha exigido um certo malabarismo mental e um grande salto de fé. “Você realmente gostou de The Seagull?”, elu me pergunta, com um meio sorriso e a cabeça levemente inclinada. Tenho a sensação de que elu está enxergando direto na minha alma. “Porque eu não gostei! Acho que eu simplesmente não entendi. Li na escola e achei tão denso… E pensei que a Nina era meio sem graça, meio sonsa.”
Na primeira reunião com Ostermeier, Corrin admitiu que não tinha certeza se queria aceitar o papel. “Eu sei como é querer ser artista, e agora estou do outro lado disso. Não tinha muito interesse em voltar a ser a pessoa que eu era aos 16 anos”, explica elu. O diretor deu a elu a liberdade de experimentar, de brincar de verdade com a personagem e encontrar seu próprio caminho. Como resultado, a Nina de Corrin é tudo, menos sonsa. “E se ela fosse, na verdade, extremamente consciente de tudo?”, propôs elu.
Corrin se anima ao me contar sobre um ensaio de uma cena com Trigorin [Tom Burke], um escritor medíocre que Nina enxerga como sua chance de escapar do anonimato. Em vez de se agarrar a cada palavra dele, a Nina de Corrin comeu uma banana — de forma provocativa e subversiva. “A sala inteira caiu na gargalhada — foi meio confrontador e ao mesmo tempo cheio de flerte.”
A energia desse processo acabou transbordando para a produção; a banana não chegou até o palco, mas a possibilidade de brincar e experimentar claramente valeu a pena. No palco, Corrin é absolutamente magnétique. Há algo profundamente humano nas contradições caóticas que elu traz para a personagem: Nina sofre de amor por Trigorin, ao mesmo tempo em que exibe uma confiança silenciosa e jovem, e sabe se impor diante dele e de sua amante, a imperiosa Arkadina de Blanchett. Isso torna os triângulos amorosos que se entrelaçam na peça ainda mais engraçados — e ainda mais devastadores.
Antes de The Seagull, Corrin conta que nunca tinha trabalhado de forma tão colaborativa. “Cate é incrível nisso. Ela joga umas coisas aleatórias no meio da cena e a gente simplesmente embarca. Fico em completo estado de admiração pela imaginação e criatividade dela. Thomas cria esse ambiente em que você pode basicamente fazer qualquer coisa. É uma forma de trabalhar maravilhosa. Viramos uma família completa”, diz elu. “Nunca me senti tão próximo de um elenco.”
E o sentimento é recíproco. Ao falar sobre trabalhar com Corrin, Blanchett me diz depois: “A vida interior de Emma é tão rica e misteriosa. Contracenar com elu é como tentar segurar mercúrio. Enquanto artista, elu é puro mercúrio — imprevisível, brilhante, em constante transformação.”
Corrin fotografou sua capa para a ELLE em uma passagem rápida por Paris, entre uma apresentação e outra. Usar peças da nova coleção da Miu Miu junto com joias raras do acervo da Cartier, algumas datadas da década de 1920 — que em breve farão parte de uma exposição no V&A — faz todo sentido para elu. “Essas peças me fizeram pensar no Titanic. Elas já viveram tantas vidas. Quem foram as pessoas que as usaram? E quando as usaram?”, questiona elu. “Foi muito divertido combinar essas joias com uma coleção que é andrógina e brincalhona. Existe muita alegria e liberdade a se encontrar na moda.”
O ensaio de capa parece um encontro perfeito de estéticas para uma pessoa artista que é, ao mesmo tempo, um dos maiores talentos de sua geração e alguém que se recusa a ser definido por qualquer rótulo. Corrin se apaixonou pela atuação ainda na escola, em Surrey, e depois, durante os estudos de educação, inglês, teatro e artes na Universidade de Cambridge. Sua ascensão meteórica virou quase lenda: após se formar, Corrin conseguiu um trabalho como chemistry reader — uma espécie de leitura de cena — da Princesa Diana durante as audições para o papel de Camilla Parker Bowles em The Crown. Preparando-se junto com sua mãe, Corrin encarou aquilo como uma audição secreta, aperfeiçoando os trejeitos, o jeito de falar e o famoso olhar tímido de Diana. O resto é história.
Cinco anos depois, Diana parece até uma amiga próxima: “Tenho muito carinho por ela. É como se eu a conhecesse um pouco. Com o passar do tempo, é muito estranho pensar no quanto isso mudou minha vida. É quase grande demais pra conseguir colocar em palavras.”
A amada interpretação de Corrin trouxe para elu aclamação generalizada, um Globo de Ouro e uma indicação ao Emmy. Naturalmente, surgiu uma grande expectativa para ver elu de volta às telas em dramas de época, interpretando mulheres reprimidas em relacionamentos infelizes. Vieram My Policeman, ao lado de Harry Styles, e O Amante de Lady Chatterley, com Jack O’Connell — mas Corrin estava determinade a escapar desse molde. “Eu escolho meus papéis muito instintivamente”, diz elu. “Não tenho coisas específicas que procuro — é mais baseado em um sentimento.”
Nos anos seguintes, elu provou de verdade sua versatilidade como artista. Em 2023, Corrin viveu uma detetive amadora em A Murder at the End of the World, ao lado de Harris Dickinson, antes de encarar uma vilã da Marvel: a fria e calculista Cassandra Nova, no filme satírico de super-heróis Deadpool & Wolverine, estrelado por Ryan Reynolds. Depois, Corrin contracenou com Lily-Rose Depp na perturbadora refilmagem do clássico cult de terror Nosferatu.
Misteriosamente metamórfique ao transitar entre gêneros, Corrin consegue sempre trazer humanidade para cada personagem que assume. Como me contou sua amiga e colaboradora Little Simz (Corrin fez uma participação inesperada no álbum Sometimes I Might Be Introvert, da musicista): “O talento delu é inegável. Desde a primeira vez que nos conhecemos, eu soube que estava diante de alguém que se importa de verdade com as pessoas — e com a maneira como podemos usar a arte para transformar esse mundo num lugar melhor.”
Estar de volta aos palcos, lidando com a imprevisibilidade que cada apresentação traz, parece um lembrete da impressionante capacidade de metamorfose de Corrin. Ainda assim, a adrenalina tem cobrado seu preço, e Corrin, que prefere estar na cama às 22h, frequentemente se vê acordade nas primeiras horas da madrugada. Seu novo ritual pós-espetáculo — “um uísque e uma fatia de torrada” — ajuda a relaxar.
Há algo de precioso nesses breves momentos de solidão de Corrin, tarde da noite, em sua cozinha. Tenho a sensação de que desligar e descansar não é algo que venha facilmente. A pessoa artista está no auge de sua carreira, mas certamente não está apenas sentade, apreciando a vista. “No ano passado, eu realmente senti que tinha algo fora do lugar”, conta elu. “Talvez seja a idade. O fim dos vinte e poucos anos, quando você está deixando para trás um período da sua vida e entrando nos trinta, é um espaço estranho, meio entre lugares. Eu me sentia completamente perdide no sentido de: ‘O que eu tô fazendo com a minha carreira?'”
Não é coincidência que as reflexões existenciais de Corrin tenham surgido justamente no primeiro momento, em muito tempo, em que elu pôde ter um pouco de espaço mental. As greves do sindicato SAG-AFTRA forçaram uma pausa no trabalho que Corrin não vivia desde a pandemia. “Eu não sou boa em não trabalhar, e me senti meio à deriva. Eu não tinha tanto tempo livre assim desde antes de The Crown estrear. Ficar só eu e meus pensamentos — um pesadelo da porra.” Nesse período, elu se viu revisitando os últimos anos, se perguntando se realmente tinha aproveitado aquelas experiências e pensando no que, de fato, lhe traz felicidade. “É muito fácil entrar nesse modo automático. Eu sou muito sortude por estar conseguindo trabalho e fazer o que amo, mas quando uma coisa emenda na outra, você não tem tempo pra perguntar: ‘Isso aqui realmente me preenche?'”
E aí tem a fama. Depois de ser escalade para viver uma pessoa com um lugar tão marcante na história, não demorou para que Corrin se juntasse a Diana como alguém de extremo interesse público. “É um aspecto muito estranho desse trabalho. Eu acho bem difícil. Tenho muita gratidão, obviamente, por tudo que meu trabalho me trouxe, mas à medida que você vai ficando mais velhe e começa a pensar no que quer para o resto da sua vida… eu tô tentando encontrar um equilíbrio entre gostar do que tô fazendo, das escolhas que tô fazendo, e me distanciar do resto.”
A perda do anonimato e o olhar constante e invasivo do público foram avassaladores, especialmente depois que Corrin se assumiu como pessoa não-binárie em 2021. “Acho que interpretar a Diana foi, de certa forma, o maior aviso”, diz elu.
Ser forçade a tirar um tempo de pausa durante as greves acabou se revelando um reinício importante para Corrin. “Percebi que queria fazer mais teatro, porque isso me traz muita alegria. Quero dizer menos ‘sim’ e quero me dar mais tempo entre um trabalho e outro para explorar outras coisas, como escrever, e simplesmente sentir meus pés no chão, estar perto da família e não pegar um avião a cada dois dias. Conseguir colocar isso em palavras foi enorme.”
Pensar no próprio bem-estar parece especialmente importante, considerando o momento em que vivemos. Semanas antes da nossa conversa, Donald Trump assinou uma ordem executiva que, na prática, desmonta os direitos de pessoas trans e não-binárias nos Estados Unidos. Desde apagar a história trans nas escolas até cortar financiamentos relacionados a cuidados de afirmação de gênero, a proposta busca, no fundo, erradicar a existência de toda uma comunidade.
“É realmente apavorante pensar nas gerações de crianças que vão crescer com esse sentimento permanente de medo e com a impossibilidade de se expressarem livremente”, diz Corrin. “Isso é muito triste. Dá uma sensação enorme de desesperança.”
A pessoa artista não voltou aos Estados Unidos desde que a legislação foi anunciada. “Ir pra lá vai ser estranho. Tenho sorte de, no meu dia a dia, me sentir segure, mas o Reino Unido também tem seus próprios problemas. Me preocupa que, à medida que outros países retrocedem, a gente acabe indo pelo mesmo caminho.”
Fazer parte de qualquer grupo minorizado muitas vezes vem acompanhado da pressão de ocupar o papel de especialista e porta-voz. Pergunto a Corrin se elu acha que a maioria cisgênera deveria fazer mais para combater o apagamento das comunidades trans e não-binárias. “Ter que se definir o tempo inteiro para os outros é uma coisa muito doida. Pensar que isso não é algo que outras pessoas precisam enfrentar em relação ao gênero…” Elu faz uma pausa. “Pra ser bem sincere, eu não sei a resposta pra essa pergunta. Me sinto meio perdide.”
Uma expressão de conflito volta ao rosto de Corrin. E, ainda assim, em meio a tanta incerteza, fica claro que elu sabe exatamente quem é. “Me sinto mais centrade este ano. Sinto que estou muito em paz comigo, algo que não experimentava há muito tempo”, diz elu.
Em um momento que fecha um ciclo, Corrin explica que é Nina — aquela que antes elu via como sem graça — quem lhe ajuda a encontrar esperança nos tempos mais difíceis. “Ela se agarra à esperança. Dizer essas palavras todas as noites é algo muito fortalecedor. É ela quem entende que, quando as coisas ficam ruins desse jeito, o mais importante que você pode fazer é colocar um pé na frente do outro e simplesmente continuar.”
❤ Fonte: ELLE UK | Tradução & Adaptação: Equipe Emma Corrin Brasil
Nesta quarta-feira, 9, Emma Corrin compareceu ao programa da The One Show da BBC para promover a sétima temporada de Black Mirror e à exibição especial do episódio Hotel Reverie no BFI Southbank em Londres. Confira todas as fotos:
Emma Corrin e Charlie Brooker compareceram ao programa The One Show para promover ‘Black Mirror’. pic.twitter.com/hsOU9liNXn
— Emma Corrin Brasil | Fã-site (@emmacorrinbr) April 9, 2025
Com estreia marcada para 10 de abril, a Netflix divulgou na tarde desta quinta-feira, 13, o trailer da sétima temporada de Black Mirror. Emma Corrin e Issa Rae estrelarão ‘Hotel Reverie‘, nome dado ao terceiro episódio, interpretando Dorothy Chambers e Brandy Friday, respectivamente. Confira abaixo todos os detalhes:
Os Shepperton Studios vêm se destacando de forma consistente desde que foram inaugurados em 1932, nas terras de uma propriedade do século XVII. Em 1949, Carol Reed filmou cenas de The Third Man sob a tutela de Sir Alexander Korda. Em 1963, Stanley Kubrick transformou uma sala de guerra para Dr. Strangelove; e foi lá que, em 1980, um John Hurt fortemente maquiado recebeu visitantes da alta sociedade vitoriana em The Elephant Man, de David Lynch.
Isso é um conjunto de ilustrações históricas elevadas, o que se alinha bem ao Keyworth, o fictício estúdio britânico de filmes que produziu o também fictício romance dos anos 1940, Hotel Reverie — conforme evidenciado pelo escritório da chefe Judith Keyworth (interpretada por Harriet Walter). Olhe de perto e você pode notar um pôster mock-up de um filme chamado Fab Fangs, “algum tipo de filme vampiresco dos anos 60”, segundo Brooker, e outro para uma comédia dos anos 70 estilo Carry On, chamado Buck Up, Doctor!.
No entanto, enquanto Shepperton garantiu mais uma década de prosperidade em 2019 com a Netflix operando no local, o Keyworth de Black Mirror está lutando para acompanhar a indústria em mudança. Enter Kimmy, uma executiva americana interpretada por Awkwafina, que oferece reviver a fortuna do estúdio inserindo uma personagem de IA — posteriormente revelado ser Brandy (Issa Rae) — em um de seus títulos clássicos. Usando a tecnologia “Redream”, Brandy será inserida no mundo simulado de Hotel Reverie, para ocupar o papel do protagonista masculino original, enquanto Dorothy Chambers (Emma Corrin) estrela como a “trágica herdeira” Clara Ryce-Lechere. E todos os outros atores também serão IA, tornando a “realidade” de Hotel Reverie a única realidade ali.
Brooker originalmente considerou refazer algo no estilo James Bond, mas acabou escolhendo o romance dos anos 40 depois de assistir ao drama romântico preto-e-branco Brief Encounter (1945), de David Lean, pela primeira vez. “Na verdade, é algo bem mundano, não é? Brief Encounter”, diz ele. “É tudo sobre olhares intensos em cima de sanduíches de geleia em um café ferroviário. Mas acho que há algo sobre o contraste entre a rigidez britânica do passado e o glamour de Hollywood. E Emma é incrível. Você acredita completamente que elu é daquela era.”
Essa é a verdade sobre Hotel Reverie, de acordo com a diretora Haolu Wang. Ela está filmando uma cena curta na qual alguém se senta ao piano do hotel para tocar para Clara. Quando membros da equipe se reúnem ao redor dos monitores de reprodução, um olhar de confusão emerge no rosto de Corrin, pois os acordes de Debussy evocam lembranças longamente enterradas — seria mesmo um filme de guerra perdido dos anos 40? Na verdade, é um feed ao vivo de uma cena sendo filmada e atuada ali, bem próximo, por Emma Corrin. O que faz com que pareça tão autêntico? O realismo dos figurinos? O detalhe do cenário? O ângulo da iluminação?
Jessica Rhoades, produtora executiva de Black Mirror e parceira criativa de Brooker, tem outro pensamento: “A estrutura óssea delu é incrível”, diz ela, referindo-se ao rosto de Corrin, que realmente compartilha o encanto das estrelas britânicas dos anos 1940, como Vivien Leigh e Celia Johnson. “Elu estava com a cabeça raspada e, quando apareceu e colocou a peruca, se transformou completamente.”
Mais tarde, quando a Empire tem a chance de perguntar diretamente a Corrin sobre isso, elu credita seu trabalho com Polly Bennett, a coreógrafa que virou preparadora de movimento e que, anteriormente, ajudou Emma a interpretar a icônica Princesa Diana em The Crown. “Eu estava tentando captar aquele tipo muito específico de rigidez que as atrizes [dos anos 1940] tinham”, diz Corrin, que, por sugestão de Brooker, também estudou compilações de erros de gravação de Hollywood no YouTube. “Especialmente a maneira como elas se moviam ao redor dos objetos no ambiente. Lembro de Polly dizendo: ‘Imagine que você está sempre usando uma capa muito longa.’ Isso muda completamente a forma como você se posiciona.”
O diálogo específico da época, escrito por Brooker, também ajuda. Clara fala sobre sentir-se “tão melancólica” ou, alternativamente, ser transportada pela música “para os lugares mais alegres”. O formato de antologia de Black Mirror permitiu que Brooker “explorasse diferentes gêneros” ao longo dos anos, incluindo uma tentativa de faroeste que foi abandonada (“porque pensei que Westworld já existia”), e até mesmo um musical de Black Mirror que ainda não foi produzido. No entanto, talvez surpreendentemente para uma série tão voltada para o futuro, o drama de época se tornou o gênero mais revisitado de Brooker, desde quando os anos 1960 apareceram em Black Mirror, além de que “nesta temporada, voltamos aos anos 1990 algumas vezes, ao mesmo tempo em que também voltamos para o futuro. Acho que isso é em parte consequência de eu estar ficando mais velho e me lembrar de mais coisas ao longo do tempo.”
Brooker pronuncia essa última palavra com a ressonância solene do próprio Pai Tempo. “Também me dei conta de que muitas séries de ficção científica estão começando a parecer que todo mundo está cercado por vidro e cromo, sem nenhum marrom por perto. Então, fizemos um esforço para que essa temporada parecesse diferente.”
A ambientação de época também permitiu que Issa Rae experimentasse uma versão completamente imersiva da oportunidade oferecida à sua personagem. Como fã de Black Mirror, ela adorou que o roteiro parecia ser “uma mistura de vários dos meus episódios favoritos, como [o romance vencedor do Emmy na terceira temporada] San Junipero e [o thriller de infidelidade em realidade virtual estrelado por Anthony Mackie] Striking Vipers” — mas também se identificou com a sensação de sua personagem estar sendo criativamente limitada pela indústria. “É o motivo pelo qual comecei a escrever meu próprio trabalho, porque você acaba sendo colocada em uma caixa. E, claro, sendo uma mulher negra, já existem tão poucos papéis disponíveis para começar.”
Então, a ideia de interpretar um papel que normalmente estaria fechado para ela por razões de raça, classe e gênero — para não mencionar a implacável passagem do tempo — definitivamente teve apelo. Estar em Hotel Reverie “me deixou nostálgica por um passado que não era meu”, enquanto também abordava suas preocupações sobre o futuro do cinema e da televisão. “Simplesmente pareceu extremamente… provável”, diz ela. “E esse é o aspecto mais assustador de assistir Black Mirror. Eu consigo ver isso acontecendo completamente. Especialmente em uma indústria que parece tão carente de criatividade às vezes.”
Escrita em 1895 pelo dramaturgo russo Anton Tchékhov e encenada pela primeira vez em 1896, THE SEAGULL, está ganhando uma nova versão pelas mãos de Thomas Ostermeier e Duncan Macmillan e estrelada por Emma Corrin e Cate Blanchett. A peça estará no teatro Barbican, em Londres, de 26 de fevereiro a 5 de abril. Confira abaixo todos os detalhes:
SINOPSE
Arkádina (Cate Blanchett) é uma renomada atriz cuja presença imponente domina tanto o palco quanto seus relacionamentos pessoais. Ao chegar à propriedade rural de sua família para o fim de semana, ela se vê envolvida em uma tempestade de desejos conflitantes. Seu filho dramaturgo, Konstantin (Kodi Smit-McPhee), luta para sair de sua sombra enquanto busca realizar suas próprias ambições artísticas, enquanto seu amante, Trigorin (Tom Burke), desperta o interesse da jovem aspirante a atriz Nina (Emma Corrin). À medida que seus destinos se entrelaçam e cada um enfrenta seus anseios, ambições e desilusões, a história atemporal de Tchékhov se desenrola em um envolvente drama sobre vaidade, poder e os sacrifícios feitos em nome da arte.
ELENCO
Emma Corrin – Nina Zaréchnaya
Cate Blanchett – Irina Arkádina
Paul Bazely – Evgeny Dorn
Priyanga Burford – Polina Shamrayev
Tom Burke – Alexander Trigorin
Zachary Hart – Simon Medvedenko
Paul Higgins – Polina Shamrayev
Tanya Reynolds – Masha Shamrayev
Kodi Smit-McPhee – Konstantin Treplev
Jason Watkins – Peter Sorin
FOTOS PROMOCIONAIS & ENSAIO