O terceiro episódio da sétima temporada de Black Mirror, Hotel Reverie, nos traz um romance sáfico estrelado por Emma Corrin e Issa Rae. Em entrevista ao site da Netflix, Corrin e o criador Charlie Brooker falam sobre o final agridoce dado à história. Confira:
Será que Hotel Reverie, episódio de Black Mirror, entrega realmente um final feliz? Isso ainda está em aberto para debate.
Neste conto sáfico, a atriz de primeira linha Brandy Friday (Issa Rae) está frustrada por estar sempre sendo escalada nos mesmos tipos de papéis e sonha com algo atemporal e romântico — como o clássico de Hollywood Casablanca.
Por sorte, para ela, a executiva de estúdio Judith Keyworth (Harriet Walter), que está enfrentando dificuldades financeiras, concorda em usar o software Redream — uma tecnologia que insere estrelas do presente em filmes do passado para criar remakes interativos — numa tentativa de revitalizar sua decadente produtora, a Keyworth Pictures.
Brandy agarra a oportunidade de protagonizar uma nova versão de seu filme favorito, Hotel Reverie, no qual ela interpreta Alex Palmer, uma versão com troca de gênero do herói original. O longa também conta com sua atriz favorita, Dorothy Chambers (Emma Corrin), no papel de Clara, seu par romântico.
Mas, depois de entrar em uma versão imersiva e gerada por inteligência artificial do filme de 1949, Brandy descobre que seguir fielmente a história original é muito mais difícil do que parece.
O projeto sai totalmente dos trilhos quando Brandy perde um sinal importante, criando um grande buraco na trama que ela precisa consertar para acionar os créditos finais — ou corre o risco de ficar presa naquela realidade alternativa para sempre.
E, justamente quando as coisas começavam a voltar ao normal, um dos engenheiros derruba café em um dos servidores, tirando o Redream do ar enquanto Brandy ainda está presa dentro do sistema. Embora o programa volte a funcionar em poucos minutos no mundo real, dentro de Hotel Reverie se passaram meses — tempo suficiente para Brandy e Dorothy se apaixonarem.
Como Hotel Reverie termina?
Na cena climática do filme, Clara atira e mata o próprio marido — uma mudança drástica em relação à história original — e acaba fatalmente ferida depois de abrir fogo contra um detetive. Enquanto Clara morre nos braços de Brandy, Brandy, relutante em deixar Dorothy para trás quando o filme chegar ao fim, luta para dizer sua última fala. Mas, eventualmente, ela pronuncia as palavras que a libertam da simulação, e acorda no mundo real ainda abalada com tudo o que acabou de acontecer.
Apesar das mudanças não planejadas no enredo, a nova versão de Hotel Reverie se torna um sucesso absoluto nas plataformas de streaming. E, em um gesto emocionante, Kimmy (Awkwafina), a representante da Redream que vinha orientando Brandy durante as filmagens, envia para ela um pacote especial: um telefone antigo que permite a Brandy conversar com Dorothy, a atriz que interpretou Clara, sempre que quiser.
O criador e showrunner de Black Mirror, Charlie Brooker, contou que já sabia desde o início qual seria o desfecho do episódio. “Eu sabia exatamente qual deveria ser o final”, disse ele ao Tudum. “Que [Dorothy e Brandy] teriam esse tipo de romance à distância… parecia agridoce.”
Corrin, que interpreta Dorothy, afirma que o final destaca “a beleza de duas pessoas que se encontraram em uma circunstância extraordinária”. Mas também existe um lado triste, porque “a versão de Dorothy com quem Brandy está conversando continua existindo dentro daquela bolha.”
Com as duas se reconectando por telefone, será que isso marca o começo de um novo romance? “Brandy quase quis ficar naquele mundo”, observa Brooker. “É uma questão em aberto o que vai acontecer a seguir, porque já mostramos que existe a possibilidade de entrar ali… e quem disse que elas estão limitadas a isso?”
Hotel Reverie sempre foi pensado como uma história de amor?
Não exatamente. O episódio nasceu de várias ideias que estavam flutuando na cabeça de Charlie Brooker, incluindo um conceito de terror sobre alguém restaurando cenas antigas de um filme mudo de vampiro dos anos 1930.
“Eu tive essa ideia de alguém restaurando um filme antigo de terror e, de repente, perceber que pode conversar com alguém dentro do filme”, explica Brooker. Outra ideia envolvia colocar um novo ator dentro de um filme antigo de James Bond.
“Eu estava discutindo muito isso com a [co-roteirista] Bisha K. Ali. A gente assistiu a alguns filmes do Bond que eu não via fazia tempo”, conta o produtor executivo. “A ideia engraçada seria: ‘Ah, tem uma pessoa meio desajeitada que acaba entrando acidentalmente no [filme]’. Seria tipo a pessoa errada jogada no papel de James Bond.”
Mas, entre as semelhanças com a trilogia Austin Powers, de Mike Myers, e o orçamento gigante que uma paródia de Bond exigiria, essa ideia acabou não indo pra frente. Foi então que Brooker assistiu ao drama romântico britânico dos anos 1940 Brief Encounter, e a história de Hotel Reverie finalmente começou a tomar forma.
“Eu pensei: ‘Ah, romance clássico. E se fosse um romance vintage? É isso que temos que fazer'”, relembra ele. “Um filme de romance antigo tem uma história mais simples. E tem algo meio De Volta para o Futuro nisso — tipo, você bagunça a história e depois precisa colocar tudo de volta nos trilhos.”