Após estrelar a peça THE SEAGULL e protagonizar um dos episódios da nova temporada de Black Mirror, Emma Corrin estampa a capa da edição de maio da ELLE UK e fala sobre sua relação complicada com a fama e sobre onde encontra esperança nos dias de hoje. Confira abaixo a entrevista traduzida e as fotos do ensaio fotográfico para a revista:
Emma Corrin está frequentemente em um estado de questionamento, seja em conversas sobre uísques às duas da manhã ou enfrentando questões muito mais intensas e pessoais (“O que é que eu tô fazendo? Quero largar tudo e fazer outra coisa? O que isso significa? Quem sou eu?”). A artista de 29 anos é reflexiva e introspectiva, e seu olhar penetrante muitas vezes parece estar lendo meu rosto em busca de uma reação, enquanto responde às minhas perguntas com ainda mais perguntas.
Corrin está falando comigo de seu hotel em Paris, após um merecido sono de 11 horas e um raro dia de folga da rotina intensa nos palcos com THE SEAGULL, a clássica peça de Tchekhov na qual atua. A adaptação moderna dirigida por Thomas Ostermeier no Barbican conta com um elenco estrelado (Cate Blanchett vive Arkadina, a atriz em decadência), enquanto Corrin interpreta Nina, a jovem aspirante a artista que sonha com a fama.
Embora um dos papéis sobre os quais estamos aqui para falar se passe em uma peça de 1895, o outro está ambientado em um futuro distópico. Na nova temporada de Black Mirror, a sátira de ficção científica criada por Charlie Brooker, Corrin e Issa Rae vivem amantes em Hotel Reverie, um episódio que explora um avanço tecnológico tão absurdo quanto assustadoramente plausível: o uso de IA para refazer filmes clássicos inserindo atores do presente nos mundos originais dessas obras. “Entrar no set pela primeira vez, com aqueles cenários em preto e branco pintados à mão de forma incrível, foi muito especial”, conta Corrin.
As cenas entre elu e Rae são absolutamente hipnotizantes; a química entre es dois é tão delicada que suaviza o sentimento de angústia que normalmente acompanha um episódio de Black Mirror. “Ela é brilhante”, diz Corrin sobre sua colega de elenco. “O timing cômico dela é inacreditável. No fundo, é uma história de amor, e acho que isso vai surpreender as pessoas. Não é aquele grande alerta de terror.”
Ainda assim, quando a conversa inevitavelmente se volta para o uso de IA no cinema — um dos principais motivos da greve do sindicato SAG-AFTRA em 2023 —, Corrin fica em silêncio por um momento. “Eu não sou fã.” Elu faz uma pausa. “Na verdade, acho horrível. Isso me apavora. A perda da criatividade original, orgânica, e o fato de não precisar mais estar numa sala com um grupo de pessoas para criar algo… isso me assusta muito. Meu Deus, depois de tudo que está acontecendo no mundo, com certeza a única coisa da qual a gente deveria se agarrar é justamente estar numa sala com outras pessoas criando algo do zero. Esse é o ponto de partida de tudo, não é? A origem da esperança.”
O teatro — esse espaço onde pessoas criam algo do zero — é o primeiro amor de Corrin, embora aceitar seu papel atual tenha exigido um certo malabarismo mental e um grande salto de fé. “Você realmente gostou de The Seagull?”, elu me pergunta, com um meio sorriso e a cabeça levemente inclinada. Tenho a sensação de que elu está enxergando direto na minha alma. “Porque eu não gostei! Acho que eu simplesmente não entendi. Li na escola e achei tão denso… E pensei que a Nina era meio sem graça, meio sonsa.”
Na primeira reunião com Ostermeier, Corrin admitiu que não tinha certeza se queria aceitar o papel. “Eu sei como é querer ser artista, e agora estou do outro lado disso. Não tinha muito interesse em voltar a ser a pessoa que eu era aos 16 anos”, explica elu. O diretor deu a elu a liberdade de experimentar, de brincar de verdade com a personagem e encontrar seu próprio caminho. Como resultado, a Nina de Corrin é tudo, menos sonsa. “E se ela fosse, na verdade, extremamente consciente de tudo?”, propôs elu.
Corrin se anima ao me contar sobre um ensaio de uma cena com Trigorin [Tom Burke], um escritor medíocre que Nina enxerga como sua chance de escapar do anonimato. Em vez de se agarrar a cada palavra dele, a Nina de Corrin comeu uma banana — de forma provocativa e subversiva. “A sala inteira caiu na gargalhada — foi meio confrontador e ao mesmo tempo cheio de flerte.”
A energia desse processo acabou transbordando para a produção; a banana não chegou até o palco, mas a possibilidade de brincar e experimentar claramente valeu a pena. No palco, Corrin é absolutamente magnétique. Há algo profundamente humano nas contradições caóticas que elu traz para a personagem: Nina sofre de amor por Trigorin, ao mesmo tempo em que exibe uma confiança silenciosa e jovem, e sabe se impor diante dele e de sua amante, a imperiosa Arkadina de Blanchett. Isso torna os triângulos amorosos que se entrelaçam na peça ainda mais engraçados — e ainda mais devastadores.
Antes de The Seagull, Corrin conta que nunca tinha trabalhado de forma tão colaborativa. “Cate é incrível nisso. Ela joga umas coisas aleatórias no meio da cena e a gente simplesmente embarca. Fico em completo estado de admiração pela imaginação e criatividade dela. Thomas cria esse ambiente em que você pode basicamente fazer qualquer coisa. É uma forma de trabalhar maravilhosa. Viramos uma família completa”, diz elu. “Nunca me senti tão próximo de um elenco.”
E o sentimento é recíproco. Ao falar sobre trabalhar com Corrin, Blanchett me diz depois: “A vida interior de Emma é tão rica e misteriosa. Contracenar com elu é como tentar segurar mercúrio. Enquanto artista, elu é puro mercúrio — imprevisível, brilhante, em constante transformação.”
Corrin fotografou sua capa para a ELLE em uma passagem rápida por Paris, entre uma apresentação e outra. Usar peças da nova coleção da Miu Miu junto com joias raras do acervo da Cartier, algumas datadas da década de 1920 — que em breve farão parte de uma exposição no V&A — faz todo sentido para elu. “Essas peças me fizeram pensar no Titanic. Elas já viveram tantas vidas. Quem foram as pessoas que as usaram? E quando as usaram?”, questiona elu. “Foi muito divertido combinar essas joias com uma coleção que é andrógina e brincalhona. Existe muita alegria e liberdade a se encontrar na moda.”
O ensaio de capa parece um encontro perfeito de estéticas para uma pessoa artista que é, ao mesmo tempo, um dos maiores talentos de sua geração e alguém que se recusa a ser definido por qualquer rótulo. Corrin se apaixonou pela atuação ainda na escola, em Surrey, e depois, durante os estudos de educação, inglês, teatro e artes na Universidade de Cambridge. Sua ascensão meteórica virou quase lenda: após se formar, Corrin conseguiu um trabalho como chemistry reader — uma espécie de leitura de cena — da Princesa Diana durante as audições para o papel de Camilla Parker Bowles em The Crown. Preparando-se junto com sua mãe, Corrin encarou aquilo como uma audição secreta, aperfeiçoando os trejeitos, o jeito de falar e o famoso olhar tímido de Diana. O resto é história.
Cinco anos depois, Diana parece até uma amiga próxima: “Tenho muito carinho por ela. É como se eu a conhecesse um pouco. Com o passar do tempo, é muito estranho pensar no quanto isso mudou minha vida. É quase grande demais pra conseguir colocar em palavras.”
A amada interpretação de Corrin trouxe para elu aclamação generalizada, um Globo de Ouro e uma indicação ao Emmy. Naturalmente, surgiu uma grande expectativa para ver elu de volta às telas em dramas de época, interpretando mulheres reprimidas em relacionamentos infelizes. Vieram My Policeman, ao lado de Harry Styles, e O Amante de Lady Chatterley, com Jack O’Connell — mas Corrin estava determinade a escapar desse molde. “Eu escolho meus papéis muito instintivamente”, diz elu. “Não tenho coisas específicas que procuro — é mais baseado em um sentimento.”
Nos anos seguintes, elu provou de verdade sua versatilidade como artista. Em 2023, Corrin viveu uma detetive amadora em A Murder at the End of the World, ao lado de Harris Dickinson, antes de encarar uma vilã da Marvel: a fria e calculista Cassandra Nova, no filme satírico de super-heróis Deadpool & Wolverine, estrelado por Ryan Reynolds. Depois, Corrin contracenou com Lily-Rose Depp na perturbadora refilmagem do clássico cult de terror Nosferatu.
Misteriosamente metamórfique ao transitar entre gêneros, Corrin consegue sempre trazer humanidade para cada personagem que assume. Como me contou sua amiga e colaboradora Little Simz (Corrin fez uma participação inesperada no álbum Sometimes I Might Be Introvert, da musicista): “O talento delu é inegável. Desde a primeira vez que nos conhecemos, eu soube que estava diante de alguém que se importa de verdade com as pessoas — e com a maneira como podemos usar a arte para transformar esse mundo num lugar melhor.”
Estar de volta aos palcos, lidando com a imprevisibilidade que cada apresentação traz, parece um lembrete da impressionante capacidade de metamorfose de Corrin. Ainda assim, a adrenalina tem cobrado seu preço, e Corrin, que prefere estar na cama às 22h, frequentemente se vê acordade nas primeiras horas da madrugada. Seu novo ritual pós-espetáculo — “um uísque e uma fatia de torrada” — ajuda a relaxar.
Há algo de precioso nesses breves momentos de solidão de Corrin, tarde da noite, em sua cozinha. Tenho a sensação de que desligar e descansar não é algo que venha facilmente. A pessoa artista está no auge de sua carreira, mas certamente não está apenas sentade, apreciando a vista. “No ano passado, eu realmente senti que tinha algo fora do lugar”, conta elu. “Talvez seja a idade. O fim dos vinte e poucos anos, quando você está deixando para trás um período da sua vida e entrando nos trinta, é um espaço estranho, meio entre lugares. Eu me sentia completamente perdide no sentido de: ‘O que eu tô fazendo com a minha carreira?'”
Não é coincidência que as reflexões existenciais de Corrin tenham surgido justamente no primeiro momento, em muito tempo, em que elu pôde ter um pouco de espaço mental. As greves do sindicato SAG-AFTRA forçaram uma pausa no trabalho que Corrin não vivia desde a pandemia. “Eu não sou boa em não trabalhar, e me senti meio à deriva. Eu não tinha tanto tempo livre assim desde antes de The Crown estrear. Ficar só eu e meus pensamentos — um pesadelo da porra.” Nesse período, elu se viu revisitando os últimos anos, se perguntando se realmente tinha aproveitado aquelas experiências e pensando no que, de fato, lhe traz felicidade. “É muito fácil entrar nesse modo automático. Eu sou muito sortude por estar conseguindo trabalho e fazer o que amo, mas quando uma coisa emenda na outra, você não tem tempo pra perguntar: ‘Isso aqui realmente me preenche?'”
E aí tem a fama. Depois de ser escalade para viver uma pessoa com um lugar tão marcante na história, não demorou para que Corrin se juntasse a Diana como alguém de extremo interesse público. “É um aspecto muito estranho desse trabalho. Eu acho bem difícil. Tenho muita gratidão, obviamente, por tudo que meu trabalho me trouxe, mas à medida que você vai ficando mais velhe e começa a pensar no que quer para o resto da sua vida… eu tô tentando encontrar um equilíbrio entre gostar do que tô fazendo, das escolhas que tô fazendo, e me distanciar do resto.”
A perda do anonimato e o olhar constante e invasivo do público foram avassaladores, especialmente depois que Corrin se assumiu como pessoa não-binárie em 2021. “Acho que interpretar a Diana foi, de certa forma, o maior aviso”, diz elu.
Ser forçade a tirar um tempo de pausa durante as greves acabou se revelando um reinício importante para Corrin. “Percebi que queria fazer mais teatro, porque isso me traz muita alegria. Quero dizer menos ‘sim’ e quero me dar mais tempo entre um trabalho e outro para explorar outras coisas, como escrever, e simplesmente sentir meus pés no chão, estar perto da família e não pegar um avião a cada dois dias. Conseguir colocar isso em palavras foi enorme.”
Pensar no próprio bem-estar parece especialmente importante, considerando o momento em que vivemos. Semanas antes da nossa conversa, Donald Trump assinou uma ordem executiva que, na prática, desmonta os direitos de pessoas trans e não-binárias nos Estados Unidos. Desde apagar a história trans nas escolas até cortar financiamentos relacionados a cuidados de afirmação de gênero, a proposta busca, no fundo, erradicar a existência de toda uma comunidade.
“É realmente apavorante pensar nas gerações de crianças que vão crescer com esse sentimento permanente de medo e com a impossibilidade de se expressarem livremente”, diz Corrin. “Isso é muito triste. Dá uma sensação enorme de desesperança.”
A pessoa artista não voltou aos Estados Unidos desde que a legislação foi anunciada. “Ir pra lá vai ser estranho. Tenho sorte de, no meu dia a dia, me sentir segure, mas o Reino Unido também tem seus próprios problemas. Me preocupa que, à medida que outros países retrocedem, a gente acabe indo pelo mesmo caminho.”
Fazer parte de qualquer grupo minorizado muitas vezes vem acompanhado da pressão de ocupar o papel de especialista e porta-voz. Pergunto a Corrin se elu acha que a maioria cisgênera deveria fazer mais para combater o apagamento das comunidades trans e não-binárias. “Ter que se definir o tempo inteiro para os outros é uma coisa muito doida. Pensar que isso não é algo que outras pessoas precisam enfrentar em relação ao gênero…” Elu faz uma pausa. “Pra ser bem sincere, eu não sei a resposta pra essa pergunta. Me sinto meio perdide.”
Uma expressão de conflito volta ao rosto de Corrin. E, ainda assim, em meio a tanta incerteza, fica claro que elu sabe exatamente quem é. “Me sinto mais centrade este ano. Sinto que estou muito em paz comigo, algo que não experimentava há muito tempo”, diz elu.
Em um momento que fecha um ciclo, Corrin explica que é Nina — aquela que antes elu via como sem graça — quem lhe ajuda a encontrar esperança nos tempos mais difíceis. “Ela se agarra à esperança. Dizer essas palavras todas as noites é algo muito fortalecedor. É ela quem entende que, quando as coisas ficam ruins desse jeito, o mais importante que você pode fazer é colocar um pé na frente do outro e simplesmente continuar.”
❤ Fonte: ELLE UK | Tradução & Adaptação: Equipe Emma Corrin Brasil